A segurança que não cabe num palanque
Por Redação

Expansão dos grupos armados mostra que operações isoladas não são suficientes para enfrentar organizações que atuam em escala nacional e transnaciona
Na manhã da última quarta-feira, 18 ônibus foram atravessados nas ruas de Cascadura, Campinho e Quintino, na Zona Norte do Rio. Motoristas foram rendidos e os coletivos, utilizados como barricadas para atrasar uma operação da Polícia Militar.
Ao todo, 33 linhas tiveram os itinerários alterados, o funcionamento do BRT foi afetado e uma unidade de saúde atrasou sua abertura. A operação terminou com quatro pessoas presas e uma morta.
Os episódios registrados no Rio de Janeiro na semana passada não ganharam destaque no noticiário nacional e pouco apareceram no debate público. O caos provocado pela expansão dos grupos armados parece ter sido incorporado ao cotidiano.
O tema alimenta promessas estridentes de alguns políticos, mas ainda existe pouco interesse em discutir o problema com a profundidade necessária.
Quatro milhões sob influência de grupos armados
No Mapa Histórico dos Grupos Armados, identificamos que aproximadamente 4 milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio vivem em áreas controladas ou influenciadas por grupos armados. O número representa 35% da população da região.
Em 18 anos, a extensão territorial submetida a alguma forma de domínio armado cresceu 130%.
Esse avanço não está restrito ao Rio de Janeiro. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais mostram que, das 88 organizações criminosas em atuação no Brasil, 46 disputam territórios nos nove estados do Nordeste.
As facções também avançam pelo Norte e pela Amazônia, controlando rotas, mercados e estruturas financeiras que atravessam fronteiras estaduais e nacionais.
A repetição de uma resposta insuficiente
A resposta pública oferecida a esse fenômeno continua praticamente a mesma: mais policiais nas ruas, mais viaturas e fotografias de armas apreendidas depois das operações.
O episódio dos ônibus mostra o limite dessa estratégia. A operação cumpriu o objetivo anunciado e houve prisões, mas as barricadas foram erguidas de qualquer maneira.
Quem sofreu as consequências foi a população que depende do transporte público, dos postos de saúde e das ruas abertas para trabalhar, estudar e circular pela cidade.
No estudo “Percursos Interrompidos”, registramos 2.228 interrupções no transporte público provocadas pela violência armada entre janeiro de 2023 e julho de 2025 na Região Metropolitana do Rio.
As paralisações tiveram duração média de sete horas e atingiram o entorno de 95% das escolas municipais da capital. Esse é um custo que raramente aparece nas avaliações das políticas de segurança ou nos discursos eleitorais.
Estados não conseguem enfrentar o problema sozinhos
Existe uma razão para essa resposta não funcionar. Nenhum governo estadual possui estrutura, orçamento ou alcance jurisdicional suficientes para enfrentar sozinho uma organização que opera em escala nacional e transnacional.
Até hoje, nenhum território brasileiro foi recuperado de maneira duradoura apenas pela atuação isolada de um estado. O principal gargalo não está somente no número de policiais, mas na falta de capacidade operacional, integração e recursos.
Enfrentar organizações criminosas dessa natureza exige coordenação federativa. A União precisa articular estados, municípios, Poder Judiciário, Ministério Público e sociedade civil em torno de uma estratégia comum.
Essa não é uma proposta nova, mas continua distante da prática.
Uma discussão que precisa chegar às eleições
Essa conversa normalmente não cabe nos palanques. Isso não significa que deva permanecer fora do debate público.
O Brasil precisa de um programa mínimo de segurança pública baseado na garantia de direitos e capaz de dialogar com as preocupações reais da população. Essa é uma urgência que se impõe durante o período eleitoral.
Os candidatos que ignorarem esse cenário poderão ser surpreendidos nos próximos 30 dias.
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