Especialista explica como o câncer de mama afeta a autoestima, os relacionamentos e a saúde emocional
Por Redação

Medo, ansiedade, mudanças na autoestima e insegurança sobre o futuro fazem parte dos desafios enfrentados por muitas mulheres. Especialista destaca a importância do acolhimento emocional durante e após o tratamento.
Receber o diagnóstico de câncer de mama é um momento que pode mudar completamente a vida de uma mulher. Além da preocupação com a doença, o tratamento e as possibilidades de recuperação, muitas pacientes precisam enfrentar uma batalha silenciosa, marcada pelo medo, pela ansiedade e pelas mudanças na forma como enxergam a si mesmas.
Durante o Outubro Rosa, campanha dedicada à conscientização sobre o câncer de mama, especialistas chamam atenção para uma questão que nem sempre recebe a mesma visibilidade dos exames e tratamentos: a saúde mental das mulheres que convivem com a doença.
O assunto foi abordado pelo psicanalista e escritor Kesler Soares Pereira, fundador da Cronos DH, no artigo “A mente de quem atravessa o câncer de mama”, publicado no portal Cronos Psicanálise.
O especialista destaca que o diagnóstico não afeta apenas o corpo. Ele também pode transformar os planos para o futuro, os relacionamentos familiares, a vida profissional, a sexualidade e a autoestima.
O impacto emocional começa no diagnóstico
A descoberta do câncer de mama costuma trazer uma série de questionamentos. O medo de morrer, as dúvidas sobre a eficácia do tratamento, a possibilidade de perder os cabelos ou passar por uma cirurgia e a preocupação com os filhos e familiares podem provocar intenso sofrimento emocional.
Entre as reações possíveis estão ansiedade, tristeza, alterações do sono, insegurança e dificuldades para lidar com as mudanças na rotina.
Segundo Kesler, é fundamental compreender que essas reações não representam fraqueza. Cada mulher enfrenta o diagnóstico de maneira diferente, dependendo de sua história, das condições de saúde e da rede de apoio disponível.
O psicanalista também faz um alerta importante: não existe comprovação científica de que uma mulher desenvolva câncer de mama por ter pensamentos negativos, sofrer emocionalmente ou deixar de manter uma postura otimista.
Responsabilizar a paciente pelo surgimento da doença pode aumentar o sentimento de culpa e tornar um momento já difícil ainda mais doloroso.
Mudanças no corpo podem afetar autoestima e sexualidade
O tratamento do câncer de mama pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia e outras abordagens, conforme as características da doença e as necessidades de cada paciente.
Algumas dessas intervenções provocam alterações físicas que podem afetar a relação da mulher com o próprio corpo.
A perda dos cabelos, as cicatrizes cirúrgicas, a retirada parcial ou total da mama e outras consequências do tratamento podem gerar insegurança e dificuldades relacionadas à autoestima e à sexualidade.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Cancerologia aponta que mulheres que passaram pelo câncer de mama podem enfrentar desafios psicológicos e sociais relacionados à ansiedade, à depressão e à vida sexual.
A pesquisa também destaca a importância dos grupos de apoio e das atividades de educação em saúde para fortalecer os vínculos sociais e melhorar a qualidade de vida.
A importância do acompanhamento psicológico
O cuidado com a saúde mental pode fazer parte do tratamento oncológico desde o diagnóstico e continuar durante a recuperação.
O acompanhamento psicológico oferece um espaço para que a paciente expresse seus medos, fale sobre suas inseguranças e encontre formas de lidar com as transformações provocadas pela doença.
Esse atendimento também pode envolver familiares e cuidadores, que frequentemente enfrentam sofrimento emocional ao acompanhar alguém durante o tratamento.
O Instituto Nacional de Câncer reconhece a importância da assistência psicológica integrada às equipes multidisciplinares, considerando as necessidades emocionais e sociais das pacientes.
O apoio psicológico não substitui consultas médicas, medicamentos, cirurgias ou outros procedimentos oncológicos. Ele complementa o cuidado, contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida.
A pressão para demonstrar força pode aumentar o sofrimento
Outro ponto levantado por Kesler Soares Pereira é a cobrança para que mulheres diagnosticadas com câncer permaneçam fortes e otimistas o tempo inteiro.
Embora mensagens de incentivo possam ser importantes, exigir positividade constante pode dificultar a expressão de sentimentos como tristeza, raiva e medo.
Nem todas as pacientes conseguem enfrentar a doença da mesma maneira. Algumas precisam conversar, outras preferem momentos de silêncio, e muitas necessitam de acompanhamento especializado.
O acolhimento deve respeitar essas diferenças, sem transformar o sofrimento emocional em motivo de julgamento.
Os desafios continuam mesmo depois do tratamento
O encerramento do tratamento representa uma etapa importante, mas nem sempre significa o fim das dificuldades emocionais.
Depois de meses ou anos convivendo com consultas, exames e procedimentos médicos, algumas mulheres precisam se adaptar novamente à rotina.
O receio de que o câncer retorne, conhecido como medo da recidiva, pode continuar presente mesmo após resultados favoráveis.
Também podem surgir dificuldades para retomar a vida profissional, os relacionamentos afetivos e a confiança no próprio corpo.
Por isso, especialistas defendem que o acompanhamento emocional não seja interrompido automaticamente com o fim das principais etapas do tratamento médico.
Família e amigos têm papel fundamental na recuperação emocional
A presença de familiares, amigos e pessoas de confiança pode contribuir para que a mulher enfrente o tratamento com mais acolhimento e segurança.
Uma revisão científica publicada em 2025 na Revista Bioética destaca que o câncer de mama pode provocar impactos importantes na autoestima e na qualidade de vida, enquanto o apoio familiar e os grupos de suporte podem ajudar a enfrentar essas dificuldades.
Pequenas atitudes, como acompanhar consultas, ajudar nas tarefas diárias, respeitar momentos de silêncio e ouvir sem julgamentos, podem fazer diferença.
O mais importante é compreender que cada paciente possui necessidades próprias e que o apoio deve ser oferecido sem cobranças.
Outubro Rosa precisa olhar também para a saúde emocional
O câncer de mama permanece entre os principais desafios de saúde pública no Brasil. Segundo o INCA, é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras, desconsiderando os tumores de pele não melanoma, e a principal causa de morte por câncer na população feminina.
A campanha Outubro Rosa reforça a importância do diagnóstico precoce, da atenção aos sinais da doença e do acesso ao tratamento adequado.
Mas o cuidado também precisa incluir a saúde emocional de quem recebe o diagnóstico.
A reflexão apresentada por Kesler Soares Pereira chama atenção para a necessidade de enxergar a paciente além da doença, respeitando sua história, seus sentimentos e suas necessidades.
Afinal, enfrentar o câncer de mama não significa apenas realizar exames, passar por procedimentos e acompanhar resultados médicos. Para muitas mulheres, também representa reconstruir a autoestima, enfrentar incertezas e encontrar novas formas de seguir a vida.
Artigo original: https://cronospsicanalise.com.br/blog/a-mente-de-quem-atravessa-o-cancer-de-mama
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.







