Peça sobre abandono, solidão e violência contra a mulher emociona público no Rio
Por Redação

Uma história de abandono, solidão, violência e resistência tomou conta do palco do Teatro Correios Léa Garcia, no Centro do Rio de Janeiro, nas noites de sexta-feira (11) e sábado (12). O monólogo “A Confissão de Leontina”, estrelado por Rose Irene Visitação, encerrou sua passagem pela capital fluminense sob aplausos e com uma forte reação da plateia, que encontrou na personagem criada por Lygia Fagundes Telles situações ainda presentes na realidade de muitas mulheres.

Mais do que acompanhar a apresentação, parte do público permaneceu no teatro após as sessões para conversar com a atriz e com a diretora Karina de Faria. O bate-papo acabou se transformando em um espaço de troca de experiências, com espectadores relatando histórias pessoais e lembranças despertadas pela trajetória apresentada no palco.
“Todos temos um pouco da Leontina”, resumiu Rose Irene ao falar sobre a proximidade criada entre personagem e público.
O espetáculo é inspirado no conto homônimo de Lygia Fagundes Telles, uma das principais escritoras da literatura brasileira. No palco, Leontina aparece como uma mulher simples, vinda do interior e marcada desde cedo pela falta de oportunidades, pelo abandono e por diferentes formas de violência.

A adaptação leva o espectador para dentro dessa trajetória por meio do relato da própria personagem. A narrativa ganha força ao tratar de temas como invisibilidade feminina, desigualdade social, solidão e a maneira como determinadas violências acabam sendo naturalizadas no cotidiano.
A direção e a dramaturgia são assinadas por Karina de Faria. A proposta da montagem é aproximar o público da personagem, fazendo com que sua história ultrapasse os limites da ficção e provoque uma reflexão sobre mulheres que ainda vivem situações semelhantes.

Depois de uma primeira circulação pela Bahia, que reuniu aproximadamente mil espectadores, “A Confissão de Leontina” iniciou uma circulação nacional. Em 2026, o espetáculo também passou por outras cidades brasileiras antes de chegar ao Rio. A montagem esteve, por exemplo, em Belo Horizonte, dentro da agenda de apresentações gratuitas do projeto.
A passagem pelo Rio teve um significado especial para Rose Irene Visitação. Baiana, a atriz morou durante anos na cidade antes de retornar ao seu estado natal. Voltar aos palcos cariocas com um projeto idealizado por ela mesma tornou as duas sessões ainda mais simbólicas.
“Estou muito emocionada de estar no Rio e ver toda essa beleza acontecendo. Foi maravilhoso. Quero voltar muitas vezes. Levar ‘A Confissão de Leontina’ para diferentes estados é ampliar o alcance de uma história que infelizmente ainda se repete na vida de muitas mulheres. Por isso, queremos promover encontros que despertam reflexão e diálogo através do teatro”, afirmou Rose Irene.
A escolha de promover conversas ao final das apresentações também faz parte da proposta do projeto. A ideia é que o espetáculo não termine quando as luzes do palco se apagam, mas continue por meio da troca entre artistas e espectadores.
No Rio, essa proposta ficou evidente. Durante os encontros após as apresentações, pessoas da plateia contaram experiências com pontos semelhantes aos vividos pela personagem e falaram sobre a identificação provocada pelo texto.
A montagem aposta justamente nessa proximidade. Leontina não é apresentada como uma personagem distante ou excepcional, mas como uma mulher cuja trajetória reúne situações que podem ser reconhecidas em diferentes gerações e contextos sociais.
Uma carreira dedicada ao teatro e à educação
Idealizadora e protagonista do projeto, Rose Irene Visitação reúne cerca de 20 anos de carreira entre atuação, produção cultural e ensino de teatro.
Licenciada em Teatro e Pedagogia, a artista possui especializações ligadas ao ensino da arte, teatro, políticas públicas e educação a distância. Atualmente, também atua como professora de Arte na rede municipal de Feira de Santana, na Bahia.
Rose Irene acumula trabalhos no teatro, cinema e televisão. Em sua trajetória estão produções como “Os Saltimbancos”, além de participações audiovisuais e projetos culturais realizados principalmente no Rio de Janeiro e na Bahia. Seu currículo também registra participação na novela “Velho Chico”, da TV Globo, e atuação no curta-metragem “Carranca”.
“A Confissão de Leontina” passou a integrar sua trajetória artística em 2023 e ganhou uma nova circulação nacional em 2026. A atriz também esteve à frente de projetos como “Shakespeare no Sisal – Romeu e Julieta” e “Pedras em Cena – O Ouro Encantado”.
Além dos palcos, Rose Irene fundou o Espaço de Artes RV, em Teofilândia, na Bahia, onde desenvolve projetos culturais e atividades de formação artística para jovens e adultos.
Literatura levada ao palco
“A Confissão de Leontina” faz parte da obra de Lygia Fagundes Telles, autora que frequentemente colocou mulheres e seus conflitos sociais e afetivos no centro de suas histórias.
Na versão teatral, a força do texto é concentrada na interpretação de uma única atriz, colocando Leontina diretamente diante do público. O formato de monólogo ajuda a criar uma relação mais íntima entre personagem e plateia.
A montagem conta com trilha sonora original de Deco Simões, figurino de Simone Rasslan e iluminação de Maria Carla Santos.
A direção e dramaturgia são de Karina de Faria, com Maristela Araújo como assistente de direção. Karina e Maristela também assinam a produção executiva, enquanto Rose Irene Visitação responde pela coordenação de produção.
O projeto é realizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, com apoio do Ministério da Cultura e patrocínio da CMOC. As apresentações no Rio tiveram entrada gratuita.
As duas sessões foram realizadas às 19h no Teatro Correios Léa Garcia, na Rua Visconde de Itaboraí, no Centro do Rio.
Ao final da passagem pela cidade, o saldo foi de uma montagem que conseguiu ir além da apresentação teatral. Entre lágrimas, risadas, aplausos e relatos pessoais, a história de Leontina encontrou novas vozes na plateia e reforçou a proposta de transformar o teatro também em espaço de diálogo sobre questões que continuam fazendo parte da realidade brasileira.

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