Quando a bandeira vira escudo
Por Eduardo Azevedo

O Rio de Janeiro talvez não enfrente apenas um problema de corrupção. Existe algo igualmente perigoso: a indignação seletiva.
Durante anos, parte da direita brasileira levantou como bandeira o combate à corrupção, à velha política e aos privilégios. Em 2018, Jair Bolsonaro tornou-se, para milhões de brasileiros, o símbolo dessa ruptura.
Mas uma pergunta precisa ser feita em 2026: esses princípios continuam valendo quando os problemas aparecem dentro da própria direita?
No Rio, nomes como Rodrigo Bacellar, TH Joias, Thiago Rangel e Cláudio Castro passaram por prisões, investigações, denúncias ou graves questionamentos judiciais. Cada caso possui sua situação jurídica própria e ninguém deve ser condenado antecipadamente.
Já Douglas Ruas, que hoje tenta representar uma renovação da direita no estado, integrou o governo Cláudio Castro como secretário de Cidades e teve contratos de sua antiga pasta apontados em auditoria por possíveis irregularidades, que ele nega.
E é justamente aí que Bolsonaro entra nessa reflexão.
Não porque seja responsável pelos atos dessas pessoas. Cada um responde pelo que faz. Mas porque o nome de Bolsonaro se tornou um enorme patrimônio eleitoral, utilizado por candidatos que buscam se apresentar como representantes da direita.
Só que estar ao lado de Bolsonaro não pode funcionar como certificado automático de honestidade.
A direita que cobrou explicações da esquerda precisa ter coragem para cobrar os seus próprios representantes. Caso contrário, estará repetindo exatamente aquilo que passou anos criticando: defender aliados e atacar adversários independentemente dos fatos.
É fácil combater corrupção quando ela está do outro lado.
A verdadeira coerência aparece quando ela bate à porta de quem vota como você.
Se uma denúncia contra adversários provoca revolta, mas uma investigação contra aliados imediatamente vira “perseguição”, talvez o problema nunca tenha sido a corrupção.
Talvez tenha sido apenas quem estava envolvido nela.
O Rio já sofreu demais com escândalos, prisões, investigações e crises políticas para continuar tratando política como futebol.
A pergunta ao eleitor não deveria ser somente:
“Esse candidato é de direita ou de esquerda?”
Muito menos:
“Ele está com Bolsonaro?”
A pergunta precisa ser:
“Ele merece representar os princípios que diz defender?”
Porque princípio que só vale contra adversário não é princípio.
É conveniência.
E a direita não perde sua identidade quando cobra, investiga e afasta os seus.
Ela perde quando começa a protegê-los simplesmente porque estão do mesmo lado.
No momento em que denunciamos tudo do adversário e justificamos tudo do aliado, já não estamos defendendo direita, esquerda ou valores.
Estamos apenas defendendo poder.
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