Será que essa ainda é a Direita de 2018?
Por Eduardo Azevedo

Será que a direita que se apresenta ao eleitor em 2026 é a mesma direita que levou milhões de brasileiros às ruas e às urnas em 2018, impulsionada por Jair Messias Bolsonaro?
Naquele momento, uma das principais bandeiras era clara: combate à corrupção, rejeição à velha política e indignação diante de escândalos envolvendo dinheiro público. O discurso era de que não poderia existir político de estimação e de que corrupção deveria ser combatida independentemente de partido ou ideologia.
Mas será que esse princípio continua valendo?
Porque existe uma contradição que precisa ser enfrentada: durante anos, parte da direita criticou setores da esquerda por relativizarem denúncias e investigações quando atingiam seus próprios políticos. Agora, diante de casos envolvendo nomes associados à própria direita, muita gente parece adotar exatamente o comportamento que antes condenava.
No Rio de Janeiro, essa reflexão se torna ainda mais necessária.
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da ALERJ, foi preso pela Polícia Federal no âmbito da Operação Unha e Carne. A investigação apura vazamento de informações sigilosas que teriam prejudicado uma operação contra integrantes ligados ao Comando Vermelho. Segundo a acusação, Bacellar teria trocado informações com TH Joias sobre a ação policial. Bacellar também teve o mandato cassado pelo TSE em outro caso, relacionado ao escândalo da Ceperj.
TH Joias, por sua vez, tornou-se réu na Justiça Federal. Segundo o Ministério Público Federal, ele integraria uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho infiltrada na ALERJ e em secretarias estaduais. As acusações incluem organização criminosa, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e munições, contrabando e corrupção ativa. Sua prisão preventiva foi mantida, e a Justiça determinou sua transferência para penitenciária federal.
Thiago Rangel também foi preso pela Polícia Federal em maio de 2026, em uma investigação sobre suspeitas de desvio de recursos destinados a obras em escolas públicas do Rio de Janeiro. Depois de cerca de três meses preso, renunciou ao mandato de deputado estadual. Ele nega as acusações.
E temos ainda o ex-governador Cláudio Castro. Em agosto, ele voltou a ser alvo da Polícia Federal na Operação Sem Refino, que investiga suspeitas envolvendo licenças ambientais, lavagem de dinheiro e o setor de combustíveis. Seu nome também apareceu em outras frentes de investigação, inclusive relacionadas ao Banco Master. Castro nega irregularidades.
E onde entra Douglas Ruas nessa história?
O atual candidato do PL ao Governo do Rio participou do governo Cláudio Castro como secretário estadual de Cidades e chegou à presidência da ALERJ depois da queda de Rodrigo Bacellar. Hoje tenta se apresentar como uma alternativa ao sistema que governou o estado, embora tenha integrado justamente essa estrutura política.
Além disso, uma auditoria do governo interino apontou possíveis irregularidades em contratos firmados pela Secretaria de Cidades durante sua gestão. Um dos casos envolve um contrato de recapeamento em São Gonçalo que passou de R$ 99,7 milhões para R$ 144,9 milhões após um aditivo de 45%. O material foi encaminhado ao Ministério Público e posteriormente à Procuradoria-Geral da República. Douglas Ruas e os demais citados negam irregularidades.
Isso não significa declarar culpado quem ainda não foi condenado. Investigação não é condenação, denúncia não é sentença e associação política não é prova de crime.
Mas também não significa que o eleitor deva fechar os olhos.
A pergunta que faço é outra: onde foi parar o rigor moral que marcou o discurso da direita de 2018?
Se corrupção era inaceitável quando envolvia a esquerda, precisa continuar sendo inaceitável quando envolve alguém que veste uma camisa de direita, faz campanha ao lado de Bolsonaro ou pede votos usando o bolsonarismo como identidade política.
Não existe corrupção de direita ou corrupção de esquerda. Existe corrupção.
Não podemos transformar aquilo que antes chamávamos de indignação em conveniência política.
Se ontem criticávamos quem dizia “é perseguição” toda vez que um aliado era investigado, não podemos simplesmente repetir o mesmo argumento hoje porque o investigado está do nosso lado.
A verdadeira coerência não aparece quando denunciamos o adversário. Ela aparece quando temos coragem de cobrar aqueles em quem votamos.
Por isso, talvez a pergunta para 2026 não seja apenas quem é de direita ou quem é de esquerda.
A pergunta deveria ser:
Quem realmente representa os valores que dizia defender quando pediu o nosso voto?
Porque carregar o nome de Bolsonaro, vestir verde e amarelo ou se apresentar como candidato da direita não pode funcionar como certificado automático de honestidade.
Se a direita abandonar o combate à corrupção para proteger os seus, terá cometido exatamente o erro que passou anos denunciando nos adversários.
E aí teremos que fazer uma pergunta ainda mais desconfortável:
Será que mudaram os políticos, ou fomos nós que começamos a aceitar aquilo que antes jurávamos combater?
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