Três anos na polícia, nove na política e milhões nos negócios de Douglas Ruas
Por Redação

A trajetória empresarial de Douglas Ruas (PL), candidato ao Governo do Rio, passou a receber maior escrutínio após a revelação de negócios milionários, compras de terrenos em áreas beneficiadas por obras públicas e operações envolvendo empresas ligadas ao parlamentar e a seus familiares. A sequência de transações, concentrada justamente no período de ascensão política de Ruas, coloca a relação entre seus negócios privados e sua atuação no poder público no centro do debate eleitoral.
Um dos principais pontos envolve a Saur Terraplanagem e Construção, empresa na qual Douglas possui 90% das cotas. Registros empresariais e imobiliários mostram que a companhia, fundada em 2011, passou a ampliar seus investimentos em imóveis a partir de 2023, com aquisição de terrenos, imóveis e outros ativos.
A mudança ocorreu em um período de crescimento da presença de Douglas na administração pública. Depois de ocupar diferentes cargos públicos e ser eleito deputado estadual em 2022, ele assumiu, em setembro de 2023, a Secretaria de Estado das Cidades.
Entre as operações está a aquisição de seis terrenos em Vista Alegre, São Gonçalo. A compra pela Saur ocorreu em novembro de 2023, quando Douglas já estava à frente da Secretaria das Cidades.
O negócio chama atenção porque Vista Alegre recebeu mais de R$ 34 milhões em obras públicas realizadas por meio de parceria entre o Governo do Estado e a Prefeitura de São Gonçalo, comandada pelo pai de Douglas, Capitão Nelson (PL).
Uma das vias contempladas pelas intervenções foi justamente a Rua Itaporanga, onde ficam terrenos adquiridos pela empresa de Douglas.
Douglas afirmou que os imóveis foram comprados quando as obras executadas pela prefeitura já estavam concluídas e que a empresa pagou preços compatíveis com a nova realidade imobiliária da região.
Registros públicos, no entanto, mostram que intervenções no bairro continuavam sendo divulgadas posteriormente. Em março de 2024, as obras em Vista Alegre ainda eram apresentadas como estando em andamento, com previsão de conclusão no primeiro semestre. Na época, Douglas, então secretário estadual das Cidades, chegou a falar publicamente sobre o projeto.
Em junho daquele ano, novas informações apontavam que as intervenções estavam recebendo os últimos ajustes. No mês seguinte, foi anunciada a entrega de 23 ruas pavimentadas e drenadas dentro do pacote de investimentos superior a R$ 34 milhões.
A sequência dos acontecimentos, por si só, não comprova irregularidade na aquisição dos imóveis, mas coloca a relação entre os investimentos privados e as obras realizadas pelo poder público sob escrutínio.
Outro ponto envolve os resultados financeiros da Saur. Documento registrado pela empresa aponta R$ 19,6 milhões em lucros acumulados até novembro de 2025. Na distribuição prevista aos sócios, aproximadamente R$ 15,9 milhões foram destinados a Douglas Ruas, controlador de 90% da companhia. O pagamento foi programado em parcelas até 2028.
O montante é significativamente superior aos cerca de R$ 1,2 milhão em patrimônio que Douglas havia declarado à Justiça Eleitoral quando disputou uma vaga de deputado estadual em 2022.
A Saur também ampliou suas operações nos últimos anos, com investimentos milionários em imóveis e outros ativos, incluindo precatórios.
Os negócios imobiliários também alcançam pessoas próximas ao candidato. Mariana Barbosa, mulher de Douglas, aparece como proprietária da Mical Invest. A empresa adquiriu, em janeiro de 2026, uma área de aproximadamente 20,6 mil metros quadrados em São Gonçalo destinada a um empreendimento habitacional cujo custo foi estimado em cerca de R$ 58 milhões.
A empresa informou atuar como permutante no empreendimento, enquanto Douglas sustenta que as operações empresariais foram realizadas regularmente.
As relações entre contratos públicos e a gestão de Douglas também apareceram em auditorias realizadas pelo Governo do Estado. Uma das análises examinou contratos da Secretaria das Cidades referentes ao período em que ele comandava a pasta.
Entre os pontos analisados está um aditivo de 45% em um contrato de recapeamento de ruas em São Gonçalo. O valor teria passado de aproximadamente R$ 99,7 milhões para R$ 144,9 milhões.
A documentação relacionada à auditoria foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República em razão da presença de autoridade com foro entre os citados. O encaminhamento não representa denúncia, condenação ou comprovação de irregularidade.
Douglas Ruas e outros envolvidos citados nas apurações negam irregularidades e afirmam que contratos e operações empresariais obedeceram à legislação.
Com Douglas disputando o Governo do Rio, sua trajetória empresarial, a expansão dos negócios imobiliários e as decisões tomadas durante sua passagem por cargos públicos passam a receber maior escrutínio. Os documentos disponíveis permitem estabelecer a cronologia das operações, enquanto uma eventual constatação de favorecimento, conflito de interesses ou outra irregularidade depende da apuração dos órgãos competentes.
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