Ex-assessor da Alerj é preso em operação contra venda de armas para o tráfico
Por Redação

Uma operação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelou nesta quarta-feira (7) um esquema que, segundo as investigações, reunia policiais, ex-policiais e pessoas com passagens recentes por órgãos públicos do estado em atividades envolvendo comércio clandestino de armas, vazamento de informações sigilosas e lavagem de dinheiro.
Batizada de Operação Magen, a ofensiva resultou na prisão de cinco pessoas. Ao todo, foram expedidos sete mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão. Entre os investigados estão ex-policiais militares, um PM da ativa, um policial civil e ex-ocupantes de cargos no Detran-RJ e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
A investigação tem como um dos principais personagens Vitor Hugo Marinho Garcia, conhecido como “Batata”. Ex-policial militar, ele é apontado pelo MPRJ como líder da organização criminosa e um dos principais fornecedores de armas e informações privilegiadas para Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de Israel.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, em outubro de 2022, Batata teria transportado e vendido dez fuzis AR-15 para Peixão. Ele foi preso durante a operação em um hotel de luxo na Barra da Tijuca, onde um fuzil foi apreendido.
Antes de ser alvo da operação, Batata também ocupou cargo comissionado no Detran-RJ. Ele foi nomeado em outubro de 2025 como Ajudante I, lotado na Presidência do órgão, e permaneceu na função até maio de 2026.
De acordo com a CNN Brasil, o Detran informou que Vitor Hugo e Marcel Rodrigues Fernandes, outro investigado, foram exonerados no dia 15 de maio deste ano, no início da atual gestão da presidência do órgão.
PASSAGEM PELA ALERJ E DETRAN
Marcel Rodrigues Fernandes também está entre os presos. Ele foi localizado em Nova Iguaçu, onde foram apreendidos um fuzil, carregadores e acessórios.
Antes de chegar ao Detran, Marcel trabalhou como assessor parlamentar na Alerj. Ele ocupou o cargo de Assessor Parlamentar III no gabinete do então deputado Felipinho Ravis (PP) e permaneceu posteriormente no gabinete de Chiquinho da Mangueira (Avante), que assumiu a vaga.
Marcel deixou a Assembleia em outubro de 2025 e, em seguida, assumiu um cargo comissionado no Detran-RJ. A exoneração ocorreu em maio deste ano.
A investigação financeira também chama atenção pelos valores atribuídos ao ex-assessor. Segundo o MPRJ, Marcel teria movimentado aproximadamente R$ 33,2 milhões entre 2019 e 2023, apesar de, segundo a acusação, não possuir fonte de renda compatível com o volume das operações.
Outro denunciado, Eduardo Thales Lopes Pires, também é ex-policial militar e já ocupou cargo comissionado na Alerj. Ele teria movimentado cerca de R$ 33,4 milhões entre 2019 e 2023.
FUZIS, PISTOLAS E CARREGADORES
A investigação aponta que o grupo mantinha uma estrutura destinada à obtenção, transporte e revenda clandestina de armamentos. Entre os materiais negociados estariam fuzis de uso restrito, revólveres, pistolas, carregadores e munições.
José Carlos Ribeiro de Campos, conhecido como “Ferrugem”, é acusado de fornecer dois fuzis Colt M4 e quatro carregadores que seriam revendidos por integrantes do grupo.
Já o policial militar Johan Borja Portela teria colocado à venda um revólver calibre .38, nove pistolas Glock 9 mm e 22 carregadores.
Durante a Operação Magen, foram apreendidos fuzil, granada, outras armas, dinheiro em espécie e aparelhos celulares nos endereços alvos das buscas.
DADOS SIGILOSOS TERIAM SIDO VAZADOS
Além do comércio ilegal de armamentos, a investigação identificou suspeitas de utilização indevida de sistemas restritos das forças de segurança.
Segundo a denúncia, policiais teriam utilizado seus acessos funcionais para consultar informações sobre veículos, endereços, localização de pessoas e mandados de prisão. Esses dados teriam sido repassados a integrantes da organização.
O policial civil Carlos Barnabé Santos Souza, conhecido como “Alemão”, é acusado de consultar o Portal de Segurança do Estado e fornecer informações ao grupo.
Em um dos episódios descritos pela investigação, ele teria obtido a localização de um procurado pela Justiça e informado sobre a existência de um mandado de prisão, permitindo que integrantes da organização chegassem ao alvo antes da própria polícia.
De acordo com a PF, o acesso às informações sigilosas também teria sido utilizado para evitar ações policiais e realizar investigações clandestinas destinadas à extorsão e obtenção de dinheiro.
MAIS DE R$ 250 MILHÕES EM MOVIMENTAÇÕES ANALISADAS
O braço financeiro é outro ponto central da investigação. O MPRJ informou ter identificado mais de R$ 250 milhões em movimentações envolvendo pessoas físicas e cinco empresas relacionadas ao grupo.
Somente as cinco empresas investigadas movimentaram aproximadamente R$ 173,7 milhões em créditos e débitos, segundo informações divulgadas pela CNN com base na investigação.
A PF, por sua vez, afirma que o esquema criminoso movimentou mais de R$ 100 milhões durante quatro anos, utilizando contas pessoais e empresas que seriam usadas para ocultar e dar aparência legal aos recursos.
Entre os negócios investigados estão empresas dos setores de alimentação, comércio de materiais, construção e reforma.
A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores, além do sequestro de três imóveis e 31 veículos ligados aos investigados.
DEZ PESSOAS DENUNCIADAS
O MPRJ denunciou dez pessoas por suposta participação no esquema. Os investigados poderão responder, de acordo com a participação atribuída a cada um, pelos crimes de organização criminosa armada, comércio ilegal de armas de fogo e munições, violação de sigilo funcional, usura e lavagem de dinheiro.
Além das prisões e buscas, foram determinadas medidas cautelares contra outros investigados, incluindo monitoramento eletrônico. O Ministério Público também solicitou providências diante do risco de fuga de alvos para o exterior.
A investigação teve início a partir da apuração do poderio bélico de traficantes que atuam no Complexo de Israel. Com o avanço das diligências, PF e MPRJ afirmam ter identificado outras frentes de atuação do grupo, chegando ao comércio de armas, às movimentações financeiras e ao suposto uso de informações restritas da segurança pública.
As investigações continuam para esclarecer a extensão do esquema e a participação individual de cada um dos denunciados.
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