De padrinho político a alvos da PF: a história que liga Márcio e Jorge Canella
Por Eduardo Azevedo

Jorge foi eleito vereador com apoio de Márcio, adotou o sobrenome do aliado na política e chegou a se apresentar como “o vereador do Márcio”. Agora, os dois aparecem em diferentes fases da Operação Unha e Carne.
A prisão do ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), nesta quinta-feira (15), acrescentou um novo capítulo a uma história que envolve alianças políticas, expansão eleitoral, armamentos de uso restrito e investigações sobre a possível atuação do crime organizado em estruturas públicas do Rio de Janeiro.
A história tem outro personagem importante: Jorge Eduardo Barreto de Andrade Filho, conhecido como Jorge Canella, vereador da capital fluminense, preso em flagrante pela Polícia Federal em 22 de setembro.
Embora não sejam parentes, os dois construíram uma relação política que ultrapassou os limites de Belford Roxo e chegou à Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
A proximidade, antes apresentada publicamente como uma aliança política, passou a ser examinada também pelos investigadores.
A origem de uma parceria política
A ligação entre Márcio e Jorge Canella não começou nas eleições de 2024.
Jorge, coronel da reserva da Polícia Militar, já havia ocupado o cargo de secretário de Segurança Pública de Belford Roxo entre 2017 e 2018, além de funções administrativas na Polícia Militar e no Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
Em maio de 2021, Márcio Canella, então deputado estadual, apresentou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro o Projeto de Resolução nº 568/2021, propondo conceder a Medalha Tiradentes a Jorge.
Na justificativa, Márcio destacou a trajetória do aliado na segurança pública e na administração estadual.
O documento oficial mostra que a relação entre os dois já era reconhecida institucionalmente pelo menos três anos antes da eleição municipal.
A expansão do grupo de Belford Roxo para a capital
Em 2024, Jorge Canella conquistou uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro com 19.353 votos.
Sua eleição fez parte de um movimento político de Márcio Canella para ampliar a presença de aliados além de Belford Roxo, alcançando municípios importantes do estado.
Jorge passou a utilizar o sobrenome Canella como identidade política, apesar de não possuir parentesco com Márcio.
A força dessa associação ficou evidente na própria campanha eleitoral. Segundo informações mencionadas durante um julgamento no Tribunal Regional Eleitoral, Jorge chegou a se apresentar como “o vereador do Márcio”.
O episódio demonstra que a ligação não era apenas uma aproximação informal. O nome do padrinho político também foi utilizado como instrumento de identificação eleitoral.
O primeiro fuzil e a prisão de Márcio
Em 7 de julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Unha e Carne, voltada à investigação de uma suposta organização criminosa que utilizaria postos de combustíveis para lavar dinheiro na Região Metropolitana do Rio.
Durante a operação, Márcio Canella foi preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil de uso restrito em seu veículo.
O político foi posteriormente colocado em liberdade por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A investigação, entretanto, não terminou com sua soltura.
A origem da arma apreendida passou a ser um dos pontos examinados pelos investigadores.
A investigação chega ao vereador Jorge Canella
Em 22 de setembro, a Polícia Federal realizou a sétima fase da Operação Unha e Carne.
Desta vez, um dos alvos era Jorge Canella.
Agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao vereador, incluindo sua residência na Barra da Tijuca e seu gabinete na Câmara Municipal.
Na residência, foram encontrados dois fuzis e uma submetralhadora de uso restrito. Jorge acabou preso em flagrante por suspeita de posse ilegal de armamento.
Segundo reportagem do SBT News, fontes ligadas à investigação apontaram a suspeita de que Jorge teria providenciado o fuzil apreendido anteriormente com Márcio.
Essa informação representa uma conexão investigativa entre os episódios, mas não constitui prova definitiva de que Jorge tenha fornecido ilegalmente a arma.
A defesa do vereador sustentou, na ocasião, que as armas eram registradas e que a situação envolveria divergências cadastrais.
A ligação entre os dois chega ao Tribunal Eleitoral
A relação entre Márcio e Jorge Canella também foi mencionada no julgamento do registro da candidatura de Márcio a deputado estadual.
Em 29 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro decidiu, por maioria, permitir sua candidatura.
Durante o julgamento, o desembargador Guilherme Calmon, que votou contra o registro, mencionou a proximidade entre os dois políticos.
O magistrado citou a homenagem proposta por Márcio em 2021 e a campanha eleitoral de Jorge, na qual ele teria se apresentado como representante político do aliado.
Calmon também abordou suspeitas envolvendo relações com integrantes de organizações criminosas.
Entretanto, o entendimento do desembargador não prevaleceu. A maioria do tribunal considerou insuficientes os elementos para impedir o registro da candidatura.
A decisão eleitoral não representou julgamento definitivo sobre as investigações criminais.
Das investigações às urnas
Apesar da prisão de julho e das controvérsias judiciais, Márcio Canella foi eleito deputado estadual em 4 de outubro de 2026.
Recebeu 197.178 votos, tornando-se o segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Onze dias depois da eleição, em 15 de outubro, voltou a ser preso pela Polícia Federal.
Desta vez, a prisão ocorreu na oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma suposta estrutura criminosa envolvendo postos de combustíveis, lavagem de dinheiro e agentes públicos.
Segundo informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a movimentação financeira examinada pelos investigadores ultrapassa R$ 7,6 bilhões em seis anos.
O valor corresponde às movimentações sob investigação e não significa que todo esse dinheiro tenha origem criminosa ou pertença a Márcio Canella.
A operação também atingiu Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, e incluiu mandados judiciais em diferentes municípios fluminenses.
Uma operação que alcança diferentes nomes da política
A Operação Unha e Carne já teve entre seus alvos outros personagens conhecidos da política estadual.
Entre eles estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar e o deputado estadual Thiago Rangel, investigados em episódios distintos.
As apurações envolvem suspeitas de relações entre agentes públicos e organizações criminosas, vazamento de informações, irregularidades administrativas e crimes financeiros.
Cada investigado responde por fatos específicos, e a presença de diferentes políticos na mesma operação não significa que todos integrem um único esquema ou tenham cometido os mesmos crimes.
Uma aliança política sob investigação
A trajetória de Márcio e Jorge Canella reúne fatos documentados: a atuação de Jorge na segurança pública de Belford Roxo, a homenagem proposta por Márcio, a eleição do vereador com apoio do aliado, a utilização do sobrenome como identificação política e as prisões ocorridas em fases diferentes da mesma investigação.
Agora, a Polícia Federal procura esclarecer responsabilidades individuais e possíveis conexões entre os episódios.
O caso também levanta uma questão de interesse público: até que ponto as relações construídas entre agentes políticos, estruturas de segurança e administrações municipais podem ajudar a compreender os fatos investigados?
A resposta dependerá das provas reunidas, das manifestações das defesas e das decisões judiciais.
Até o momento, as prisões e suspeitas relatadas não equivalem a condenações definitivas.
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.







