Nilópolis recebe milhões para a saúde, mas prefeito fecha emergência e CTI de hospital
Por Redação

A suspensão dos atendimentos de emergência e do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital e Maternidade Municipal Juscelino Kubitschek, em Nilópolis, na Baixada Fluminense, expôs a crise no financiamento da saúde pública durante a gestão do prefeito Abraãozinho David (PL). A decisão chama ainda mais atenção diante dos milhões de reais em emendas parlamentares federais recebidos pelo município nos últimos dois anos.
Dados do Portal da Transparência federal, compilados pela plataforma Prefeituras em Números, mostram que a prefeitura e os fundos municipais receberam aproximadamente R$ 71,67 milhões em emendas parlamentares entre 2025 e setembro de 2026. Foram R$ 32,2 milhões em 2025 e R$ 39,47 milhões em 2026.
Grande parte dos recursos foi direcionada ao Fundo Municipal de Saúde, responsável por financiar ações e serviços da rede pública municipal.
Apesar dos repasses, a população passou a enfrentar a suspensão de dois serviços essenciais do principal hospital público da cidade.
Hospital reinaugurado em 2024 perde emergência e CTI
O fechamento dos setores foi anunciado no sábado (31 de outubro). Pacientes que procuraram a unidade naquele dia enfrentaram dificuldades para conseguir atendimento de emergência.
O Hospital Juscelino Kubitschek havia sido reinaugurado em agosto de 2024, depois de permanecer 13 anos fechado. A unidade passou por obras que custaram aproximadamente R$ 26 milhões, financiadas pelo governo estadual.
A reabertura representava a recuperação de uma estrutura importante para a população de Nilópolis e de municípios vizinhos.
Pouco mais de dois anos depois, a interrupção da emergência e do CTI compromete parte dos serviços oferecidos pela unidade.
A prefeitura informou que a maternidade, as internações clínicas e as cirurgias eletivas continuarão funcionando.
Prefeito culpa governo estadual pela crise
Abraãozinho atribuiu a suspensão dos atendimentos à redução dos repasses financeiros do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Segundo o prefeito, o hospital recebia R$ 5,6 milhões mensais para custear suas atividades, mas o valor foi reduzido para R$ 1 milhão, uma queda de aproximadamente 82%.
A administração municipal afirma que não possui condições financeiras de manter todos os serviços funcionando com o novo valor.
O governo estadual, entretanto, apresentou uma versão diferente sobre os repasses.
A Secretaria de Estado de Saúde informou que os critérios de distribuição foram alterados por uma resolução pactuada com os municípios fluminenses. A pasta também afirmou ter transferido R$ 3,3 milhões referentes a setembro dentro do prazo.
A divergência entre prefeitura e governo estadual deixa uma questão: quais medidas foram adotadas para impedir que a população ficasse sem atendimento?
Mais de R$ 71 milhões em emendas federais exigem prestação de contas
O levantamento das emendas parlamentares amplia a necessidade de esclarecimentos por parte da gestão municipal.
Entre os recursos pagos em 2025 estão R$ 18,07 milhões em emendas da bancada federal do Rio de Janeiro, R$ 9,22 milhões em emendas individuais com finalidade definida e R$ 4,91 milhões em emendas de comissão.
Também aparecem indicações de parlamentares como Benedita da Silva, General Pazuello, Lindbergh Farias, Júlio Lopes e outros deputados.
Em 2026, os pagamentos de emendas à prefeitura e aos fundos municipais chegaram a R$ 39,47 milhões até setembro.
É importante destacar que esses recursos possuem regras próprias de aplicação. O dinheiro destinado a determinados programas, equipamentos ou investimentos não pode necessariamente ser utilizado para custear a emergência de um hospital.
Entretanto, o volume de verbas recebidas torna indispensável uma prestação de contas detalhada.
A administração municipal precisa esclarecer quanto foi destinado especificamente ao Hospital Juscelino Kubitschek, quais despesas foram pagas, quanto permanece disponível e se existiam alternativas legais para evitar a interrupção dos serviços.
Quem paga a conta é a população
Enquanto os governos discutem os repasses, os moradores de Nilópolis enfrentam as consequências da suspensão dos atendimentos.
A prefeitura orientou os pacientes que necessitam de assistência de urgência a procurar a UPA do bairro Cabuís.
A transferência da demanda para outra unidade também exige planejamento para garantir profissionais, equipamentos e capacidade de atendimento suficientes.
A redução dos recursos estaduais representa uma dificuldade financeira relevante, mas a gestão municipal também precisa demonstrar quais providências tomou desde que foi informada sobre a mudança no financiamento.
O fechamento de serviços hospitalares não pode ser tratado apenas como uma disputa entre governos. É necessário apresentar soluções concretas e informações transparentes sobre o orçamento da saúde.
Prefeitura precisa explicar o destino dos recursos
A população tem direito de saber como foram aplicados os milhões de reais recebidos em emendas parlamentares, quais investimentos foram realizados e quais medidas estão sendo adotadas para restabelecer os atendimentos.
Também cabe à prefeitura informar o custo mensal da emergência e do CTI, os valores efetivamente disponíveis para custeio hospitalar e o planejamento financeiro para manter os serviços funcionando.
O recebimento de emendas não significa, por si só, que existiam recursos livres para impedir o fechamento. Também não constitui prova de irregularidade na administração municipal.
No entanto, diante da suspensão de serviços essenciais e dos valores recebidos pelo município, a gestão Abraãozinho precisa apresentar explicações detalhadas e um prazo para a retomada dos atendimentos.
Até o momento, não foi anunciada uma data para a reabertura da emergência e do CTI do Hospital Juscelino Kubitschek.
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